terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Ser gorda ou não ser: uma questão do preconceito
por Andrea Pavlovitsch
Escrevo há anos. E até já pincelei o assunto em alguns artigos, mas nunca falei disso abertamente. E hoje, assistindo a um capítulo da novela da Globo, onde uma enfermeira gorda é humilhada por querer se casar com um bonitão, parece que me deu coragem.
Sou gorda desde os 11 anos, quando comecei um gradativo processo de “ser diferente da maioria”. Junto com a minha gordura e com o desejo de experimentar o mundo pela boca, veio um monte de coisas. Aos 11 eu comia. Muito. Gostava já de chocolate (sou chocólatra assumida) e de coisas que os médicos repudiam. Pegava a minha parca mesada e gastava toda numa farra gastronômica regada à hambúrguer e batatas-fritas. Eu nunca havia experimentado nada parecido. E muito menos melhor.
Mas eu não era só gorda. Era inteligente. Escrevia e dirigia peças de teatro no prédio. Conhecia nomes como Caetano Veloso e escrevia um jornal para as crianças da comunidade que dava um gibi para o desenho mais bonito. Escrevi um livro falando de uma família de negros e o preconceito que eles sofriam e ganhava os prêmios de redação da escola. Com louvor. Mas é daí? Eu era gorda.
E aí minha mãe me levou à um médico. E ele disse que, se não emagrecesse, teria os seios enormes e “cheios de alergia e bolinhas doloridas no meio deles” (SIC) quando crescesse. Fiquei apavorada e tomei a fórmula milagrosa que me fez perder oito quilos em dois meses. E estava “linda” no verão quando minha vista ficou escura e eu tive uma disritmia cerebral dupla por conta de anfetaminas e sabe-se lá mais o que que o nobre doutor colocou na minha fórmula.
Nunca fui preguiçosa. Sempre gostei de exercícios. Fazia vôlei no clube e adorava exibir minhas joelheiras pelas ruas do bairro. E eu era boa nisso. Depois fiz balé, anos de natação, jazz. Caminhava todos os dias no parque e, desde os 11 anos, não parei de fazer dietas. Desde as mais malucas até as chamadas reeducação alimentar.
Fiz terapia, yoga, tai chi. Curso de alimentação natural, Vigilantes do Peso (três vezes), Meta Ideal (ou será que a meta era real?). No terceiro ano da faculdade tinha um estúdio de fotografia montado e a Ângela, a professora de fotografia, queria ser a minha tutora porque acreditava no meu talento. Mas o assunto predileto dos meus “amigos” da época era só um: o tamanho do meu bumbum (depois que me recusei a sair com um idiota completo).
Emagreci e engordei inúmeras vezes. Usei todos os manequins possíveis. Passei por todo tipo de situação constrangedora que uma pessoa poderia passar. Quando perguntei, aos 14 anos para a minha mãe se eu era bonita ela respondeu “Você é bonita. É uma gorda bonita” (SIC). Dizia isso enquanto escondia os potes de chocolate e biscoitos que comprava, mas escondia (é, eu nunca entendi muito bem isso). Uma vez, entrando toda autoconfiante numa balada, ouvi um grupo de garotos falando que não sabiam que a Fat Family ia cantar naquela noite (eu estava com as minhas amigas, também gordas). Chorei baixinho bebendo uma caipirinha e escondida num canto pelo resto da noite. O menino pelo qual eu fui apaixonada a adolescência inteira disse uma vez que eu não poderia entrar no carro dele porque eu ocuparia todo o banco de trás. E uma vez um “senhor” resolveu me chamar de gorda no meio de um supermercado porque achou que eu “roubei” a vaga dele no estacionamento.
Mas continuei. Mesmo gorda. Ignorando tudo e todos ao meu redor e imaginando que sim, um dia eu seria magra. Um dia eu acordaria, depois deu uma longa dieta, e ninguém mais poderia falar mal de mim. Ninguém poderia me rejeitar, me dizer que eu era feia. Minha mãe teria orgulho de mim e meu pai também (porque eu seria magra e não por ter descoberto a cura do câncer ou qualquer coisa assim). O rapaz pelo qual eu estava apaixonada não ia me tratar como a “amiga legal” e assisti filmes no escuro sem nem me tocar, porque eu seria magra. As pessoas me olhariam com respeito, como deveria ser.
Este dia chegou e foi embora, inúmeras vezes. E em nenhum deles, quando estava magra, essas coisas aconteceram. Em nenhum deles o rapaz resolveu que me amava ou as pessoas me respeitaram mais. Mas eu continuei insistindo na história da dieta, esperando que um dia isso acontecesse. Não aconteceu. E eu continuei insistindo.
E hoje, vendo a personagem se defender de uma pessoa que a estava humilhando (e depois de uma longa conversa com uma pessoa muito especial na minha vida) eu pensei que era isso, só isso que estava me faltando. Não, eu não tenho os seios juntos e não tem nenhuma bolinha dolorida neles. Eu não estou errada. Eu não sou preguiçosa (faço academia e aulas de dança), não tenho colesterol alto e nem como quilos e mais quilos de gordura todos os dias. Eu não estou errada.
Eu consigo subir uma escada e não morrer e tenho boas pernas, fortes, sadias e bem bonitas. Tenho simpatia, amor, orgulho, autoestima. Minhas taxas são todas normais. Eu não tenho pressão alta e nem estou perto de ser diabética. Não como só porcarias o tempo todo e meu sofá não tem a minha bunda marcada nele. Eu não tenho os dedos sujos de gordura e faço coisas bem legais na grande maioria do meu tempo. Eu tenho um monte de sonhos e um monte de amigos. Uma família grande que me ama todinha, do jeito que eu sou. Quero viajar pra um monte de lugares, falar novas línguas, escrever e publicar mais livros. Eu quero ver meus sobrinhos crescendo, viver o meu amor, a minha família. Quero usar roupas lindas e servir de exemplo para pessoas que tenham qualquer tipo de diferença.
Não, o erro não está e nunca esteve em mim. O erro sempre esteve do outro lado, do lado de fora de mim, do lado do preconceito. Não podemos ter preconceito contra negros ou gays, dá cadeia. Mas ninguém fala nada sobre os gordos, afinal de contas é só você ter “vergonha na cara e força de vontade para mudar” (SIC). Ou não. Ninguém, como disse a personagem, pergunta por que você está assim. Ao contrário. Já ouvi inúmeras pessoas me dizendo que tenho o rosto lindo, porque não faço uma dieta? Eu olho para ela como se tivesse descoberto a roda “Nossa, é mesmo, como é que eu não pensei nisso antes?”. E a pessoa me olha achando que conseguiu, finalmente, me consertar.
Eu não estou quebrada. Eu não sou errada. O erro está na boca de todo o mundo. Na mente. Nas ilusões nas quais essas pessoas acreditam. Eu sou eu. E parte da minha característica é essa. E se você não quer passar comigo, como terapeuta, porque sou gorda.... Ou se você não quer me namorar porque eu sou gorda... Ou se você não quer ser meu amigo porque eu sou gorda aí, querido, o problema definitivamente não é meu. É uma pena para você, que vai perder a pessoa maravilhosa que eu sou. Que eu continuo sendo, mesmo depois de tanta, tanta porrada da vida e das pessoas. E depois de ouvir os gritos da Perséfone na novela, meu bem, estou na coragem. Vem mexer comigo, vem? Ah, já aviso que só respondo se me convier. Porque eu tenho certeza de que a maioria das coisas que eventualmente chegarão até mim não serão doenças minhas. Mas das pessoas de onde elas saíram. Hoje me dou o direito de ser só eu mesmo. Com tudo o que eu tenho de bom. E de ruim (que, com certeza, não é a gordura). Hoje eu sou A GORDA!
Andrea Pavlovitsch
http://diadediva.blogspot.com
@dekapavlovitsch
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